02/06 A ORAÇÃO COMO EXPERIÊNCIA DE RELAÇÃO
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Para entendermos as coisas de Deus sempre é bom olhar mais de perto as nossas próprias coisas, como “funcionamos” como gente, como acontecem as mudanças decisivas de nossa vida. Com facilidade criamos mitos, imaginamos padrões de relação com o transcendente absolutamente diversas e incompatíveis com nosso modo habitual de viver e relacionar-se, daí resultando frustrações sucessivas.
Por isso seria importante partirmos de uma verificação fenomenológica: como nos tornamos “discípulas/os” de alguém? O que nos leva a seguir uma pessoa, a engajar nosso destino com alguém, a internalizar um comportamento, a criar uma amizade, um amor? A experiência parece mostrar que tudo isto só acontece quando há paixão resultante de um relacionamento denso.
Toda paixão começa por uma fascinação, que sempre é por pessoas. A fascinação não tem lógica, e chegamos mesmo a dizer que “para quem ama, o feio bonito lhe parece”. Fascinação não se explica, se experimenta. Você já pensou em convencer alguém a se apaixonar por você? A fascinação acontece através de algum tipo de experiência relacional, por proximidade, por uma “sedução progressiva” no encontro cotidiano. Justamente por isto a Bíblia vai expressar a relação com Deus nas seguintes palavras: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir”.
Nunca nos deixamos fascinar por alguém que não se revela, não se deixa perceber, não se manifesta. A essa revelação de si feita pela outra pessoa, respondemos com nossa atenção. A fascinação supõe encontro. Na oração este processo se inicia quando sou capaz de dar uma radical atenção a este Outro que é Deus se revelando a mim (e até me buscando no meio da noite, dizendo meu nome), e que fascina de tal modo que silencio. Mais do que falar, o que me satisfaz é a escuta do radicalmente Outro, prestar-lhe toda minha atenção e reverencia… Na oração, esta escuta é antes de tudo, da palavra bíblica, escrita de forma inspirada por alguém apaixonado e que deseja partilhar conosco essa sua paixão pelo transcendente. Num dos roteiros de oração mais antigos que temos, de S. Bento, o grande fundador de vida religiosa denomina este momento de LECTIO (leitura).
Deste primeiro momento de visibilidade, quando as pessoas envolvidas no relacionamento se afastam e internalizam a experiência vivida, voltam lembranças do que foi vivido e escutado, de alguma forma o outro se torna novamente presente através da memória. S. Bento, falando da oração, caracteriza este momento como MEDITATIO (meditação). Seu início consiste justamente na recordação daquilo que retivemos do encontro com a Trindade ou outra pessoa da revelação divina. Na continuação da Meditatio, tomo consciência de que aquilo que me lembro de alguma forma me conta algo novo sobre a pessoa divina cujo encontro estou, naquele momento de oração, experimentando.
Finalmente, desta consciência mais profunda de revelação da pessoa divina experimentada, pode surgir o desejo de estar junto de se reencontrar, partilhar tempo e espaço, contar-se, participar… é o momento em que falo na oração, peço, lamento, louvo, etc. S. Bento denomina esta etapa orante de ORATIO.
Se estiver correta nossa percepção de que é assim que se criam nossas adesões existenciais, então podemos afirmar que a relação com o transcendente não se estabelece através de um padrão totalmente diverso. Nosso encontro com Deus, nossa fascinação por Ele, a transformação de nossa vida, tudo seguirá o mesmo caminho.
Curiosamente, é com as ciências modernas, particularmente a educação, que a espiritualidade está aprendendo estas coisas. A reflexão sobre a educação personalizada, onde a relação entre professor e aluno é constitutiva do processo de aprendizado, veio iluminar também nossas ideias sobre espiritualidade, fundadas durante largo período em modelos diretivos ou simplesmente conscientizadores.
Continuando nossa verificação sobre o caminho humano, percebemos que a visibilidade provoca uma emoção, e desta, podem surgir a fascinação e o desejo, tal como fala a própria escritura utilizando um vocábulo ainda mais forte: “Senhor, tu me seduziste e eu me deixei seduzir”. De algum modo podemos dizer que evangelizar é provocar o desejo de Deus, pois sem desejo não haverá fascinação, e sem fascinação não existirá seguimento, discipulado.
A maior parte das emoções que sentimos não provocam mudanças comportamentais. Elas se esgotam no próprio ato de senti-las. Algumas emoções, entretanto, perdem o seu “e” inicial, transformando-se em “moções”, em desejos de ação. Quando um desejo se sobrepõe aos outros desejos que estamos experimentando, torna-se o referencial, o principio e fundamento de nossa vida, podemos dizer que estamos fascinados. Sem uma fascinação, um amor preferencial, um principio e fundamento do existir, podemos ficar no universo dos desejos, que se entrechocam, se sobrepõem e finalmente nos fragmentam e neurotizam. A propaganda que vemos nos meio de comunicação parece funcionar assim: ela provoca o consumo visibilizando cada dia novos desejos.
Em geral, quando ficamos fascinados por alguém, colocamo-nos em situação de seguimento. Começamos a procurar quem nos fascina, mudamos nossos caminhos para encontrar a pessoa, chegamos mesmo a desistir dos nossos próprios roteiros. Parece que nada mais interessa, não importam horários e as regras. Quem segue, move-se como é e como está. Não s
trata de imitação, que leva a reproduzir a outra pessoa em si mesmo, mas de estar junto, compartilhar o mesmo tempo, o mesmo espaço, o mesmo destino. Para isto, a pessoa fascinada é capaz de arriscar tudo
Podemos dizer que, neste momento do processo, é possível falar em situação de apaixonamento, assumida sem nenhuma certeza racional, no abandono e na condição radical, sem sequer levantar a questão da possibilidade do sucesso de “dar certo”. Falam os poetas da “cegueira” desse momento, da “loucura” que representa. A decepção só acontece quando ao apaixonamento termina ou não se encaminha para etapas mais profundas da relação.
A mudança de caminho pessoa provocada em nós pelo apaixonamento, gera mudanças culturais físicas, psicológicas (sentir-se diferente, leve, um novo brilho no olhar) Paixão não tem jeito de esconder. Você fica absolutamente diferente por causa de alguém. Até mesmo na caminhada vocacional podemos perceber que alguém, uma pessoa real e determinada, foi decisiva no nosso processo de apaixonamento por Deus. As decisões fundamentais de nossas vidas tiveram a influência decisiva de pessoas pelas quais nos fascinamos. E ai surge uma intimidade que gera uma identidade; gostamos das mesmas coisas, das mesmas comidas, músicas, etc… ficamos de alguma forma parecidos. Deus ficou tão apaixonado que ficou parecido conosco – se encarnou. A encarnação é sinal da paixão da Trindade por nós. Na linguagem cotidiana falamos “minha vida é você”, “somos almas gêmeas”. Passamos, então a ter tempos e espaços preferenciais para a pessoa amada. Por isto é estranho quando alguém diz “gosto tanto de rezar e não encontro tempo”. Para aquilo que a gente gosta, sempre encontramos tempo.
Quando você se apaixona você cria uma espécie de solidariedade de destino, começa a ter um sonho em comum com a pessoa amada. Este o efeito principal da oração, gerando para nós uma identidade tal com Deus que, como S. Paulo, podemos dizer que “já não sou eu quem vivo, mas é Cristo quem vive em mim”.
Na hora de sua oração ande sem pressa e deixe-se tomar pelo silêncio da manhã. Suavemente colocar-me na presença de Deus, sob seu olhar. Procurar sentir seu amor que se revela em cada uma das pequenas coisas que vejo, bem como na pessoa dos outros. Depois, faça a leitura espiritual do texto acima, diante de Nossa Senhora, procurando perceber como você se situa, neste momento de sua vida, no quadro de oração. Como ela reflete sua paixão primordial? Procure o que parecer importante ao final da manhã.
O TEMPO DO ENCONTRO
No lugar que tenha escolhido pra sua oração, iniciar com um relaxamento. Busque posição confortável, acolhedora, tronco mais ou menos reto, olhos fechados, mãos uma sobre a outra. Imagine um riacho de água claras; observe a água correndo e levando folhas e galhos. Não se preocupe com a passagem do tempo.
Quando julgar conveniente, pergunte-se: como estou por dentro de mim mesmo? Há tranquilidade, paz? Que harmonia existe em meu coração? O que mais desejo que aconteça neste tempo de oração? Que abertura tenho para escutar (= prestar atenção) o Senhor?
LEIA VAGAROSAMENTE ESTES TEXTOS:
Lc 10, 38-41 Andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas…
Hb 4,12-16 A palavra de Deus está viva e ativa
Jó 33, 12-16 Ninguém presta atenção ao que Deus diz
Ap 3,20-22 Ouçam! Eu estou junto à porta e bato
Lm 3,21-26 O Senhor é tudo o que tenho, e por isso nele ponho a minha esperança
Jr 29, 11-14 Eu responderei a você…
MEU PLANO E MINHA VIDA COM DEUS
QUE PROJETO DE VIDA QUERO CONSTRUIR?
“Celebro a alegria de viver!
Conto meus anos não pelo tempo, mas pelo espaço que faço em meu coração.
Não pelo número de troféus de minhas conquistas, mas pelo gosto de aventura de minhas buscas.
Não pelas vezes que cheguei, mas pelas vezes que tive coragem de partir.
Não pelos frutos que colhi, mas pelo terreno que preparei e as sementes que lancei.
Não pela quantidade dos que me amam, mas pela medida de meu coração, capaz de amar a todos.
Não pelas desilusões que tive, mas pela esperança que infundi”.
Fizemos juntos uma caminhada significativa: buscamos, através da oração uma intimidade com Deus, um maior conhecimento de nós mesmos, dos outros e da realidade que nos cerca.
Sabemos que a oração é uma escola onde se aprende a viver o presente, o “aqui e agora “. Ela é, ao mesmo tempo, o lugar onde se realiza a “releitura” da própria vida e da realidade, a partir do “olhar divino”. A ajuda que a oração presta à vida passa pela lenta transformação da pessoa, que não se isola da realidade histórica, mas que se compromete com ela, a partir de dentro.
Nesse sentido, a oração não é um enfeite da vida ou um luxo intelectual. Ela compromete, questiona, exige mudanças… O Encontro com Deus nos faz” diferentes”… nos lança para o Encontro com os outros e com o mundo.
Portanto, depois de ter analisado as luzes e inspirações recebidas do Senhor, as aptidões que lhe deu, as inclinações profundas e superiores de seu ser… é chegado o Momento de dar um passo a mais: a elaboração de um Projeto de Vida pessoal como um meio para concretizar sua opção de vida.
À medida que contemplamos a Vida de Jesus percebemos em que direção nos sentimos movidos por Deus, e nesta direção realizar, então nosso Projeto em vista de um maior serviço.
Quem está em estado de crescimento espiritual está continuamente em “estado de decisão”, de opção…Deus vai exigindo progressivamente à medida da resposta e da generosidade da pessoa.
A capacidade de optar faz do ser humano um peregrino, uma pessoa sempre em mudança, uma pessoa para a qual a vida é um caminho aberto em continua busca, humilde e paciente, da Vontade de Deus.
O termo Projeto (projetar-se) quer dizer jogar-se mais para frente, para além de si; implica, pois, uma superação de si mesmo, ou seja, capacidade de tender para algo que está além da pessoa e que a realiza plenamente; algo que está além daquilo que a pessoa já sabe, já conhece…; algo que atrai fortemente o indivíduo, um ideal a ser amado, uma missão a cumprir; uma força que rompe os limites estreitos da pessoa…
Fazer um projeto exige certo grau de liberdade interior. Liberdade de projetar-se para uma realidade nova. Liberdade arriscada de exigir algo mais de si mesmo. Liberdade corajosa de pensar, sentir e agir de maneira inédita, renovada…
O Projeto de Vida deve se articular em torno dos seguintes componentes:
– os caminhos novos que se abrem, preparando o futuro com iniciativas e criatividade;
– uma união a Cristo servidor, desejando tornar-se com Ele mais humilde;
– Disposição para viver o Evangelho de Cristo;
– um modo de ser e agir que revelam a qualidade e as prioridades de sua vida;
– a consciência de pertencer a um grupo, como ponto de referência para se compartilhar a vida.
GRAÇA: – Senhor, que eu me deixe conduzir pelo vosso Espirito.

Por: Ir. Sônia de Fátima Marani Lunardelli

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