17/09 SOLIDÃO – SOLIDEZ – SOLIDARIEDADE
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A solidão, a solidez e a solidariedade são três dimensões da oração cristã, consideradas não como realidades paralelas, mas como três pontos de vista de uma só, rica e complexa realidade. Três dimensões que não se excluem, mas se interagem e se exigem mutuamente, num movimento circular.
A solidão é um momento fundamental na vida cristã. Sem ela a pessoa se mascara, se aliena, se dilui, se desintegra espiritualmente de tal modo que seu interior fica um imenso vazio; esse vazio, tão comum à solidão dos que permanecem fechados em si mesmos, é que gera a angústia e o desespero.
A solidão é indispensável ao ser humano engajado, por mais ativa e atribulada que seja a sua vida. Ela o impede de ser tragado pelo ativismo que põe em risco a própria eficácia da luta, Ela proporciona o recuo necessário à visão de conjunto, à crítica e à autocrítica. Nela a pessoa se abastece, recupera suas energias criativas, areja o espírito, avalia corretamente a realidade.
Colocando a pessoa diante de si mesma, a solidão é como um espelho, no qual ela vê aquilo que em sua vida é detrito, é carga supérflua, poeira acumulada… e essa limpeza purifica e renova.
A solidão, tecida no silêncio, faz descobrir mais uma vez a novidade do Amor. Ela é o momento de síntese, re-união, encontro. Agora tudo em nós é gratuidade e verdade. Nesse espaço emerge toda a nossa liberdade, libertada pelo silêncio que nos faz conhecer as raízes do Amor. Somos todo intimidade. Aqui não há lugar para a farsa, para a trapaça. A intimidade revela a verdadeira identidade do ser humano.
Colocados diante de nós mesmos, a solidão nos conduz para além de nós mesmos, nos fazendo viver a partir da raiz, da Fonte mesma da vida. Do silêncio que exprime amor brota a luz que aponta o caminho da interioridade: do para-além-de nós-mesmos. Este caminho só pode ser percorrido pela pessoa enquanto ela se encontra só. Ninguém pode percorrer por ela.
A solidão, plenificada na intimidade consigo mesmo e com Deus:
– cria uma consistência interior, solidifica opções, valores, atitudes de vida;
– dá segurança e firmeza nas convicções e nas decisões, fidelidade aos princípios fundamentais;
– faz carregar dentro de si esperanças duradouras capazes de transformar realidades mesquinhas;
– nutre confiança em si mesmo: daqui brota a criatividade, a busca do “novo”, a aventura…
Uma pessoa sem solidez se afoga na banalidade, se perde na superficialidade, não leva adiante projetos de fôlego…
Uma pessoa superficial “passa” sem deixar rastro.
A solidão e a solidez, tecidas no silêncio, nos conduzem à morte de nós mesmos para que sejamos totalmente abertura e transcendência no outro e para o outro; nos fazem descobrir a novidade do Amor e nos abrem para a solidariedade.
É o resultado de ultrapassar todas as alienações. Temos agora a completa posse de nós mesmos porque já não nos possuímos mais. Estamos salvos porque nos perdemos. No espaço ilimitado de nossa interioridade tudo é maravilha. O mergulho em si mesmo, para além de si mesmo, opera a metamorfose que nos devolve à vida transfigurados pelo Amor que nos habita e plenifica.

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